sexta-feira, 9 de março de 2007

Charles Tang da Câmara Brasil China

O convidado de hoje diz ser brasileiro por opção e preside a Câmara de Comércio e Indústria Brasil China (CCIBC) que é a única legitimada pelo acordo que, desde 1988, mantêm com o CCPIT - Conselho Chinês para a Promoção de Comércio Internacional, órgão do Conselho de Estado da China, que têm entre suas funções, o reconhecimento das Câmaras bilaterais. Da mesma forma, a Federação das Câmaras de Comércio Exterior, da Confederação Nacional da Indústria (CNI) e o Conselho de Câmaras de Comércio Exterior reconhecem a CCIBC como a única Câmara bilateral Brasil China.

A China conta com 1,3 bilhão de consumidores, PIB estimado de quase US$ 9 trilhões que faz da economia chinesa a 4ª maior do mundo e que vem apresentando crescimentos anuais em torno de 10%. Cerca de 70% do PIB chinês provém de comércio internacional que cresce em média 30% ao ano. A renda per capita anual é de US$ 3,6 mil. A dívida externa representa 14% PIB chinês e as reservas internacionais são de aproximadamente US$ 734 bilhões. Em 2004, o comércio bilateral entre Brasil e China totalizou US$ 12,4 bilhões, um incremento de 55% em relação ao ano anterior. A China está em franco desenvolvimento sustentado, com uma taxa de juros anual de 2,5% e uma inflação inferior a 2,4%.

O Blog Ética nos Negócios conversa hoje com o CEO da CCIBC, Charles Tang.

Blog: Inicialmente, queremos conhecer o cidadão Charles Andrew Tang. Você pode nos contar um pouco sobre você?
Charles Tang: Nasci em Shanghai, fui criado nos EUA, Hong Kong e Brasil. Vivi, estudei e trabalhei em vários países, inclusive na Europa. Pude participar da fase do milagre econômico do Brasil quando, pelo Banco de Boston tive a missão de implantar leasing no Brasil nos anos 70. Nesta época, a maioria dos executivos internacionais, como aconteceu comigo, se apaixonavam pelo Brasil, um país que crescia como a China atual e aonde não existia violência. A maioria procurava empregos novos quando recebiam ordens de transferência a outros paises e em pouco tempo conseguiam oportunidades melhores.
Após estabelecer a 1a empresa de leasing no Brasil, o ex Ministro Mario Henrique Simonsen me solicitou para montar o Bozano Simonsen Leasing. Dr. Joseph Safra - a Safra Leasing, Dr. Flavio Pentagna Guimarães, a BMG Leasing. No final tinha criado empresas de leasing para onze grupos financeiros.
Meu CV resumido é: presidente binacional da Câmara de Comércio & Indústria Brasil-China; membro do Instituto Fernand Braudel de Economia Mundial; Bacharel pela Cornell University; Curso de Bacharel em Direito, Universidade Estácio de Sá; Curso de Doutorado, Paris V, Sorbornne; foi Professor Assistente da Universidade Estácio de Sá; Membro do Conselho Internacional do Governo de Wuhan e Conselheiro Econômico do Governo do Município de Jilin.
Blog: Muitas pessoas desconhecem o que é uma Câmara de Comércio e Indústria. Você pode comentar sobre as responsabilidades, atribuições, atividades e objetivos deste organismo? E, quais são as contribuições relevantes para o comércio e o desenvolvimento dos nossos países?
Charles Tang: A CCIBC foi criada em 1986 apos uma reunião para qual fui convocado pelo atual embaixador chinês, o Exmo. Sr. Chen Duqing, profundo conhecedor e admirador do Brasil, quando era jovem secretário em Beijing, com o então Ministro de Relações Exteriores da China e em seguida, Vice Primeiro Ministro. Nesta reunião foi sugerida a fundação de uma câmara bilateral que pudesse construir a ponte de amizade entre o povo chinês e o gigante da América do Sul.
Na época, poucos no Brasil se interessavam pela China e vice-versa. Tivemos o privilegio de ajudar em muitos projetos de empresas brasileiras que se instalaram na China e empresas chinesas que vieram ao Brasil. Em 2002 tivemos o orgulho de ter realizado a primeira feira de promoção comercial brasileira na China desde 1984. Pelas inúmeras palestras que proferimos em todo o Brasil, o nosso portal eletrônico e revista "Visão da China", bem como trabalho na área cultural, de cinema e de esportes, podemos dizer que tivemos sucesso e criar maior compreensão e amizade entre os povos dos dois gigantes.
Blog: A China é conhecida como um dos Tigres Asiáticos. Como surgiu essa expressão e o que ela significa?
Charles Tang: Foram apelidados de tigres asiáticos as nações que lutaram agilmente e ferozmente para enriquecer suas nações a partir dos anos 60 implementando um modelo econômico de prosperidade através de ganhos por exportação. Provaram ao mundo que o caminho de pobreza a riqueza não é nem muito longo ou demorado e nem tão difícil como imaginado.
Blog: Os especialistas divulgam que os países com maiores perspectivas de crescimento, desenvolvimento e potencial de consumo são a China, a Índia e o Brasil. E, que o Brasil poderá ser uma Superpotência Mundial. Você concorda com essas afirmações? Por quê? Como o Brasil pode aproveitar todo esse potencial declarado aos quatro cantos do mundo? Uma das formas é em relação ao tratamento dado aos investimentos estrangeiros? E, quais são as demais?
Charles Tang: Gostaria de responder esta pergunta com o artigo que escrevi para a Folha de São Paulo intitulado Para Um Brasil Próspero, publicado na coluna de Tendências & Debates, segunda feira, 19 de junho de 2006, onde afirmo que "o Brasil têm mais condições do que a China ou Japão de ser o maior tigre de exportações do mundo e ser uma superpotência econômica".
Blog: Falando ainda no potencial brasileiro. Especificamente, quais são as oportunidades do Brasil no comércio de seus produtos para a China? Existem estimativas de valores? Quais os produtos brasileiros de maior interesse das empresas e da população chinesa? O turismo faz parte disso?
Charles Tang: O comércio bilateral dos dois países passou de R$ 1.54 bilhões em 1999 a mais de dez vezes este valor em 2006 e esta estimada para chegar ao volume expressivo de US$ 35 bilhões em 2010. Além dos produtos estratégicos que a China necessita para seu crescimento continuado e para alimentação do seu povo de 1.37 bilhões, cada vez mais nichos de mercado se abrem para bens manufaturados do Brasil.
Quanto a turismo, 20 milhões de chineses, cada vez mais prósperos, estão viajando mais para conhecer o mundo. Com as dificuldades de visitar os EUA pós “11 setembro”, os chineses, que esperam receber mais de 64 milhões de turistas em 2010, podem fazer uma grande contribuição para a receita de turismo do Brasil.
Todavia enfrentam os seguintes problemas: a) a demora na concessão de vistos na embaixada e consulado na China sobrecarregados e sem recursos suficientes para atender a demanda crescente. b) Enquanto o acordo de turismo assinado pelo Ministro Valfrido dos Mares Guia ainda não esta totalmente operativo, existem vários preconceitos errôneos contra a vinda de delegações que estariam vindo ao Brasil para passeio. Ora enquanto gastem suas divisas no nosso país, estão ajudando. c) Um receio de situação ultrapassada onde nossos diplomatas acreditam que os chineses ainda querem imigrar ilegalmente da China cada vez mais próspera ao Brasil estagnado economicamente. O fato é que muitos chineses que emigraram estão voltando à China em função das oportunidades econômicas daquele país.

Blog: O chamado Custo Brasil acaba, de certa forma, tirando a competitividade desses empresários. Existem fórmulas para minimizar esses efeitos?
Charles Tang: Respondo com meus artigos O Modelo Econômico de Pobreza e Por Um Modelo Econômico de Riqueza publicados pela Folha de São Paulo, na coluna Tendências & Debates, em 14 de março e 20 de novembro de 2006, respectivamente.
Blog: Um jargão muito popular diz: “Vamos fazer um negócio da China”. Essa expressão já é ou será uma realidade bilateral? Você pode nos explicar?
Charles Tang: O Brasil realizou, nestes últimos seis anos, um gigantesco negócio da China, ao lucrar em cima dos Chineses, mais de US$ 8 bilhões em superávit nas trocas com aquele país.
Blog: Há um grande paradigma no Brasil em relação à China. Muitos atores econômicos alegam que os produtos chineses estão acabando com alguns mercados no Brasil, em razão da competição injusta imposta por esses produtos. Isso é uma realidade? O que pode ser feito? Como o meio empresarial pode tirar proveito disso?
Charles Tang: O empresário brasileiro que não conhece a China, a teme, e após conhecer melhor o país começa a enxergá-lo como fonte de múltiplas oportunidades para negócios da China!
Os que ainda pedem por salvaguardas e outras proteções artificiais devem entender que não irão impedir a expansão da China e a dos países de menor custo. Devemos sim adotar uma atitude de visão, coragem, e modernidade exigindo que nosso governo nos ofereça condições para a competitividade. Retirar os juros exorbitantes, a fauna exótica de 61 tributos escorchantes, a política cambial desfavorável, e modernizar nossa CLT que data de 1943. Respondo também com meu artigo Mais Do Que Salvaguardas, publicado pela Folha de São Paulo, na Terça feira, 15 de agosto de 2006.
Blog: E os pequenos e médios empresários têm alguma chance de combater essa situação e competir em igualdade de condição?
Charles Tang: Muitas empresas brasileiras de médio porte estão lucrando com a China. Com a ABIT Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção estamos tentando desenvolver programas onde os pequenos e médios podem ser ajudados a baratear os seus custos de produção com nosso auxílio em importar matéria primas, acessórios, máquinas e equipamentos baratos e de boa qualidade daquele país. Estamos também querendo levar a moda brasileira, dominada por pequenas e médias empresas, para participarem da semana de moda internacional de Beijing e de Shanghai.
Blog: Muito se fala em ética nos negócios. Na sua visão, quais são as bases éticas para um comércio internacional saudável?
Charles Tang: O respeito mútuo.
Blog: Você pode citar as principais particularidades, diferenças e semelhanças da prática da Ética nos Negócios na China e no Brasil em relação às empresas?
Charles Tang: Algumas práticas desonestas na China têm como penalidade a pena de morte por execução.
Blog: Recentemente lançamos a 1ª Pesquisa sobre Código de Ética Corporativo realizada no Brasil. Essa inédita pesquisa tem como principal objetivo motivar empresários e executivos na elaboração e adoção deste que, para nós, é o instrumento de maior relevância na gestão do que chamamos de Tripla Responsabilidade Corporativa, ou seja, a responsabilidade ética, social e ambiental que devem ser inseparáveis e até indistinguíveis, pois é o exercício dessas responsabilidades que conduzirá uma empresa à sustentabilidade. Para você, qual a importância do Código de Ética para uma empresa? Isso contribui para a melhoria dos negócios e acaba influenciando nos resultados?
Charles Tang: Desde meus tempos de aluno na “Cornell University” aprendemos que a responsabilidade corporativa em ética, social e ambiental, além de importantes para devolver um pouco dos benefícios conseguidos da sociedade de volta a sociedade, é também lucrativa uma vez que melhora e facilita os negócios, aumenta o tamanho do mercado, preserva melhor os recursos naturais e de matéria prima.
Blog: Essa pesquisa também nos revelou que a cultura e a prática corporativa na adoção do Código de Ética, apesar de haver evoluído muito, ainda se comporta de maneira tímida no Brasil. Como é essa cultura nas empresas chinesas? A bolsa de valores de lá exige a adoção deste instrumento como faz a NYSE – Bolsa de Nova Iorque?
Charles Tang: A cultura corporativa chinesa está cada vez mais consciente desta necessidade impulsionada pela filosofia do atual governo liderado pelo Presidente Hu Jintao que lançou a política da "Sociedade Harmoniosa". Esta filosofia prioriza a maior inclusão social do povo chinês com distribuição de riqueza conseguida pela sociedade chinesa de forma mais eqüitativa. O desenvolvimento do interior da China na sua política de "Go West" para desenvolver as cidades não costeiras do centro e oeste da China, menos avançadas que as costeiras. Cada vez mais a regulamentação nas bolsas de valores chinesas está sendo fortalecida.
Blog: Para o presidente da Câmara do Comércio e Indústria Brasil China, o que é Responsabilidade Social? Como as empresas chinesas tratam esse assunto no dia-dia dos seus negócios em seu próprio país e no comércio exterior? Qual a importância desta questão? Há algo a ser melhorado?
Charles Tang: Anos atrás recebi carta do Presidente do "Prince of Wales Business Association" que prega a responsabilidade social para empresas. Temos responsabilidade de poder retribuir a sociedade o que lucramos dela. Isto se faz necessário num país como o nosso que carece de oportunidades e ainda não têm uma cultura de filantropia. Acredito que devemos apoiar educação, treinamento, melhoria no meio ambiente e acima de tudo o respeito à sociedade e ao ambiente pela nossa breve passagem na terra. Assim poderemos reduzir a violência dos excluídos, e manter uma evolução sustentada.
Blog: E, em relação a Responsabilidade Ambiental. Existe algum diferencial das empresas em atuação na China em relação àquelas em atuação no Brasil? O que pode ser conquistado neste sentido?
Charles Tang: Muitos projetos que podem criar riquezas e empregos estão emperrados pelo zelo, às vezes excessiva, de proteção ao meio ambiente. Na China, o meio ambiente é importante tanto que o país é signatário do Acordo do Kioto. Mas a China prioriza a eliminação da fome humana.
E foi esta prioridade que levou o governo chinês a conseguir a maior conquista de direitos humanos da historia da humanidade - a de tirar da pobreza nada menos do que 400 milhões de pessoas para viverem com maior dignidade participando das conquistas econômicas do país em somente duas décadas.
Aqui no Brasil nossas leis refletem o contrário. Se matar uma pessoa existe a possibilidade de fiança. Se matar um pássaro para saciar a fome, poderá estar cometendo um crime inafiançável.
Blog: Qual deverá ser a contribuição das empresas no efetivo combate aos efeitos devastadores – tanto ambientais como econômicos – do aquecimento global?
Charles Tang: As empresas deveriam entender que não podemos cometer suicídio coletivo das gerações futuras dos nossos filhos e netos. Devemos contribuir para corrigir os danos causados. Os créditos de carbono servem para aliviar os danos, mas o mais importante é que temos de impedir a depredação.
Blog: Na china, como os governos e as empresas vem tratando esse assunto? Charles Tang: Elas se enquadram dentro das prioridades da filosofia da “Sociedade Harmoniosa”.
Blog: O que você entende por sustentabilidade nos negócios? O que realmente deve ser realizado e buscado?
Charles Tang: Ao destruir o ambiente de negócios por métodos antiéticos, em não preservar e conservar nosso meio ambiente e em não zelar pelo social, teremos uma desagregação da sociedade que não daria sustentabilidade aos negócios e as empresas.
Blog: Queremos agradecer imensamente a participação do Charles Andrew Tang – presidente da CCIBC – Câmara do Comércio e Indústria Brasil China no Blog Ética nos Negócios. Obrigado Charles Chang!

segunda-feira, 5 de março de 2007

Resultado Pesquisa do Blog

QUAL A MAIOR QUALIDADE DE UM CEO?
  • foco em resultados: 8,0%

  • competência: 8,0%

  • determinação: 0,0%

  • um exemplo para todos: 58,5%

  • saber tratar as pessoas: 0,0%

  • integridade de conduta: 25,5%

  • motivar funcionários: 0%

Quase 60% dos participantes acreditam que o CEO tem como principal qualidade ser um exemplo para todos e a integridade de conduta foi a segunda mais votada.

A nova pesquisa já está aí ao lado. Participe!

sexta-feira, 2 de março de 2007

Antonio Vives do BID

O entrevistado de hoje no Blog Ética nos Negócios é um cidadão espanhol, graduado em Engenharia Química pela Universidade Central da Venezuela, mestrado em Administração Industrial e doutorado em Finanças (Finanças das Empresas e Mercados de Capital) na Universidade Carnegie Mellon em Pittsburgh, Pennsylvania, EUA. Foi professor na Universidade Simon Bolivar e na Escola de Pós-Graduação em Administração do IESA na Venezuela e também lecionou nas universidades Carnegie Mellon, George Washington e Virginia Tech nos Estados Unidos. Além disso, trabalhou como engenheiro de refinaria e consultor em administração.
É especialista em Responsabilidade Social Corporativa, financiamento de infra-estrutura, desenvolvimento de mercados financeiros e financiamento de microempresas e PME em economias emergentes. Participa freqüentemente de conferências internacionais como orador.
Escreveu um livro sobre avaliação financeira de empresas e publicou vários artigos sobre responsabilidade social das empresas, gestão financeira e infra-estrutura privada e está escrevendo um outro livro sobre a responsabilidade social das empresas nos mercados emergentes.
Há 26 anos trabalha no Banco Interamericano de Desenvolvimento.
Seu nome é Antonio Vives, executivo responsável pelo Departamento de Desenvolvimento Sustentável e coordenador-geral da Iniciativa Interamericana de Capital Social, Ética e Desenvolvimento.
Blog: É uma satisfação muito grande receber no Blog Ética nos Negócios um dos maiores e mais respeitados especialistas em Responsabilidade Social Corporativa na atualidade. Gostaríamos de iniciar essa conversa com seu breve relato sobre o que é, o que faz e como opera o Banco Interamericano de Desenvolvimento.
Antonio Vives: O BID é uma instituição que financia o desenvolvimento econômico e social dos países da América Latina através de operações de empréstimo e de assistência técnica aos governos nacionais e locais, e ao setor privado. Além disso, promove a adoção de boas práticas no desenvolvimento econômico através de atividades de pesquisa e disseminação.
Blog: Você poderia fazer o mesmo em relação ao Departamento de Desenvolvimento Sustentável (DDS) e a Iniciativa Interamericana de Capital Social, Ética e Desenvolvimento?
Antonio Vives: Dentro do BID, o Departamento de Desenvolvimento Sustentável é encarregado de preparar as políticas setoriais da instituição e de produzir as estratégias de apoio do Banco nos diferentes setores em que opera, dentre eles podemos citar: meio ambiente, mercados financeiros, micro, pequenas e médias empresas, responsabilidade social corporativa, populações indígenas, gênero e modernização do estado. Além do mais, tem a função de pesquisar e disseminar as boas práticas nestes setores.
Dentro do Departamento, a Iniciativa de Ética e Capital Social, promove a aplicação de princípios éticos tanto no setor público como no setor privado e o desenvolvimento do capital social nas comunidades, principalmente através de atividades de capacitação e disseminação.
Blog: Qual sua definição para Responsabilidade Social Corporativa? Seria possível você traçar um pequeno histórico sobre esse assunto, desde o seu surgimento até os dias atuais?
Antonio Vives: Toda empresa opera num determinado contexto e cujos elementos influem na própria empresa: os acionistas que aportam os recursos, os credores que financiam, os trabalhadores com seu esforço pessoal, os clientes que adquirem seus bens e serviços, a comunidade que dá a empresa permissão para operar em seu meio, o governo que define as regras gerais de funcionamento e o meio ambiente que lhe proporciona recursos naturais. A empresa tem responsabilidades ante todas esses públicos, ainda que com diferentes níveis e prioridades.
Uma empresa responsável é aquela que harmoniza suas atividades de tal maneira que satisfaz as expectativas de todas estes públicos. É óbvio que na maioria dos casos se apresentam conflitos a curto prazo, por exemplo, tratar bem os trabalhadores tem impactos sobre a rentabilidade da empresa, apoiar à comunidade implica em custos. Para resolver estes conflitos e tomar as decisões, a empresa deve ter uma visão de longo prazo, considerando não só os custos no curto prazo (que os executivos vêem com grande clareza) mas também os benefícios tangívels e intangíveis no longo prazo (que muitos executivos são incapazes de considerar). A rentabilidade e a responsabilidade não são duas opções excludentes, na grande maioria dos casos, as práticas responsáveis são rentáveis.
Não mencionamos o cumprimento das leis e regulações vigentes no país, as quais mais do que “responsabilidade”, é parte do negócio. A responsabilidade de que falamos é o comportamento que teria a empresa se todas as leis e regulações fossem perfeitas. Ante as deficiências predominantes nos países em desenvolvimento, a empresa deve operar como se essas regras existissem. “Faz aos outros o que te agradaria que lhe fizessem a você”. Na América Latina esta amplitude da responsabilidade social é ainda muito incipiente. A região vem de uma tradição filantrópica, de assistencialismo, de apoio às comunidades e organizações através de doações, em razão da influência da igreja católica e da predominância de empresas familiares. Estas práticas são ainda muito comuns, em alguns casos como obrigação moral, em outros como uma maneira de contribuir para reduzir as desigualdades e, lamentavelmente, em muitos casos, como uma maneira de obter publicidade favorável. A filantropia não é responsabilidade da empresa, é responsabilidade individual, dos proprietários ou dos empregados. Não se deve usar os recursos coletivos de uma empresa para satisfazer aspirações de caráter individual. Não é que estejamos na contramão da filantropia corporativa, mas se fizer, deve ser feito como estratégia explicita, aprovada pelos acionistas ou proprietários. A filantropia do Bill Gates e Warren Buffet é realizada com o dinheiro deles e não com o da Microsoft ou o da Berkshire Hathaway, as quais uma partes pertence a eles próprios, mas também a muitos outros acionistas.
A verdadeira responsabilidade social é parte integral da estratégia do negócio, é uma maneira de fazer negócio. Os comportamentos responsáveis serão sustentáveis no longo prazo quando, realmente, forem parte da estratégia empresarial. Caso contrário, é passageira e oportunista, como costuma ocorrer com a filantropia corporativa.
Blog: Para muitos, a responsabilidade social é apenas um modismo, algo passageiro e, especialmente, uma ferramenta de marketing com baixo custo utilizada pelas empresas, pois apresentam impactos muito positivos junto a sociedade. Você concorda com essa afirmação? Por quê?
Antonio Vives: É lamentável, mas para muitas empresas é assim, é algo que é realizado por que está na moda, utilizado como uma ferramenta para evitar críticas, para se defender, ou por relações públicas como promoção vazia. São empresas que produzem algum tipo de dano àquelas que são, legitimamente, responsáveis. Transferem ao movimento de responsabilidade social uma má reputação. Ainda são poucas as empresas que fazem por convicção, por um desejo de melhorar a qualidade de vida das populações, de devolver à sociedade parte do que esta lhe dá. É, definitivamente, uma tarefa pendente conseguir que as empresas sejam responsáveis porque é bom negócio, legítimo e aceitável, e também positivo para a sociedade. Além disso, deve ser uma atitude consciente e não de caráter oportunista. A empresa que melhora sua reputação pagando salários justos é uma empresa responsável. Aquela que pretende melhorar sua imagem fazendo uma doação a uma causa, ainda que seja boa, com a intenção de publicar uma foto e aproveitar a promoção que gera essa doação, pode se tornar numa atitude deplorável, especialmente se depois, nas demais atuações pertinentes a qualquer empresa, não apresentar um comportamento responsável.
Blog: O Instituto Brasileiro de Ética nos Negócios acredita que a ética nos negócios deve ser a base sustentável das empresas e a principal ferramenta de gestão dos valores e princípios que norteiam a verdadeira responsabilidade ética, social e ambiental a qual chamamos de “Tripla Responsabilidade Corporativa”, pois de nada adianta as empresas se dizerem socialmente responsáveis se não houver uma interação e sinergia dessas três responsabilidades que devem ser inseparáveis e andar sempre juntas. Qual sua opinião a respeito disso?
Antonio Vives: Concordo plenamente. Mas, para que uma empresa seja responsável deve antes ser rentável. Se não conseguir cobrir todos seus custos, incluindo o de capital, não pode ser uma empresa responsável, se assim o fizesse, seria uma irresponsabilidade. A responsabilidade mais importante é a de continuar operando, criando e mantendo empregos, pagando impostos e produzindo bens e serviços que a sociedade demanda. Mas há muitas maneiras de fazê-lo! Todas as atividades do negócio devem levar em conta o impacto sobre todas as partes afetadas e realiza-la de tal maneira que se maximize o impacto positivo e minimize o negativo. Essas atividades responsáveis se reforçam mutuamente, o bom trato aos empregados gera produtividade, sensibilidade ante a comunidade gera mercados, etc. A responsabilidade social e ambiental das empresas é rentável. E mais, algumas empresas fazem da responsabilidade seu negócio, por exemplo, produzindo produtos ambientalmente sustentáveis, pagando salários justos, que depois se transformam em oportunidades de vendas em mercados éticos onde se valorizam estes aspectos, como é o caso dos produtos de comércio justo.
Blog: Em função das proporções que o assunto em relação ao aquecimento global está tomando, poderá haver uma alteração do foco e da atuação empresarial da responsabilidade social para a responsabilidade ambiental? O que as empresa devem fazer para contribuir com a redução de emissões dos gases de feito estufa, visto que elas também são responsáveis por isso?
Antonio Vives: O aquecimento global tem impacto global e é o problema mais importante para os países em desenvolvimento, que tem quotas de emissões para cumprir. Para as empresas atuando em países em desenvolvimento é mais uma oportunidade do que uma obrigação. É obrigação no sentido de contribuir para se evitar um problema e no caso das grandes cidades, o problema da poluição acompanha o problema do aquecimento global e deve ser minimizado. Mas, também é uma oportunidade. Por exemplo, alguns dos projetos de geração de energia ou de eficiência energética poderiam aceder aos mercados de carbono ao Mecanismo de Desenvolvimento Limpo do Protocolo de Kioto e vender os créditos gerados por ter poupado energia ou haver produzido de maneira limpa. Para grandes projetos pode ser uma fonte de rendimentos.
A tecnologia e o incentivo ao redor da preocupação pelo aquecimento global oferece oportunidades às empresas para reduzir sua dependência de combustíveis fósseis e o mais importante, pesquisar todas as possíveis formas eficientes de poupar energia (motores mais eficientes, uso eficiente das equipes, iluminação e calefação, etc.). Diminuem os custos e contribuem para a redução do aquecimento global. Também oferecem a oportunidade de se desenvolver toda uma indústria de produtos mais limpos e eficientes, que consomem menos energia como eletrodomésticos, automóveis, etc... Ganhamos todos!
Blog: Você está escrevendo um novo livro sobre um tema bastante interessante: a responsabilidade social nos países emergentes. Existem diferenças na atuação responsável de empresas atuando nos países desenvolvidos e nos emergentes?
Antonio Vives: Existem grandes diferenças no comportamento de algumas empresas em países desenvolvidos comparado com seu comportamento em países em desenvolvimento. No primeiro caso, a empresa está bem mais sujeita aos incentivos e pressões das partes interessadas, que nos países em desenvolvimento. Os grandes compradores, alguns consumidores, os bancos, os meios de comunicação, os empregados, a sociedade civil, o governo, etc.. exercem seu poder exigindo práticas mais responsáveis das empresas. Nos países de América Latina, a pressão vem das próprias empresas, de seus executivos, de seus proprietários ou da própria matriz se forem multinacionais.
Paradoxalmente, as responsabilidades que se têm para com a sociedade e o meio ambiente em países em desenvolvimento são maiores, já que as empresas enfrentam muito mais necessidades insatisfeitas da população em função dos Estados não serem capazes ou não poderem atender essas necessidades. Para poder operar, a empresa pode ter que suprir algumas destas deficiências, mas deve fazer com cautela, cuidando de não criar dependência nem substituir o governo. Não podemos alegar que fornecer água à comunidade ou construir um campo de futebol seja “responsabilidade” da empresa, isso costuma ser responsabilidade do governo local. Não obstante, pode ser desejável para a empresa reduzir o nível de violência na comunidade onde ela opera, fomentando o esporte e a saúde, conseguindo o apoio da própria comunidade. A empresa pode se beneficiar de menos faltas e maior produtividade de seus funcionários devido a melhores políticas de recursos humanos. Note a diferença entre esta motivação como parte do negócio e aquela que seria realizada como pura filantropia. No primeiro caso é parte de uma estratégia, no segundo é uma doação, que muito provavelmente será usada para efeitos promocionais.
Blog: Peguemos uma empresa com atuação global. O senhor acredita que possa haver diferenças de atuação da subsidiária dependendo do país em que ela está? A que se deve esse fato?
Antonio Vives: Efetivamente, há diferenças. Comecemos a dizer que a responsabilidade de uma empresa global num país não deveria ser menor aquela que possui em seu país de origem. Como já comentei aqui, a empresa não deve se aproveitar, por exemplo, de que nos países em desenvolvimento enconramos normas menos estritas e deficiências na hora de torná-las efetivas. As empresas devem ter os mesmos padrões que no país da sua matriz, mas deve adaptar sua atuação responsável à realidade atual de cada país, que por muitas vezes não fazem em seu país de origem. Por exemplo, dificilmente uma empresa do Reino Unido tem que apoiar escolas primárias em seu país, mas ao operar num país em desenvolvimento pode se ver ante a “responsabilidade” de fazê-lo, para cobrir as carências do Estado e poder ter no futuro uma população mais educada, seja como consumidor ou como futura mão de obra.
Blog: Em geral, como você vê a atuação responsável das empresas em atuação no Brasil em relação as da América Latina? E em relação à Europa e Estados Unidos?
Antonio Vives: Os temas sobre a atuação responsável está tomando corpo na América Latina e em particular no Brasil. No entanto, ainda se limita às grandes empresas, especialmente às empresas globais. Para as pequenas e médias empresas as atuações responsáveis se limitam as atuações que são as mais naturais e não são estratégicas, como o são as relações laborais e o consumo de alguns insumos, como água e eletricidade.
O Brasil é um dos países mais avançados na América Latina em relação a atuação responsável das grandes empresas, muitas delas globais. No caso da pequena e média empresa, o Brasil está relativamente atrasado com respeito a outros países da região, basta para isso, analisarmos os dados em nosso livro Responsabilidade Social nas Pequena e Médias Empresas. A América Latina como região ainda esta muito atrás da Europa, particularmente dos países do norte europeo. Estados Unidos e Europa Latina (França, Espanha, Itália e Grécia) estão um pouco menos avançados, ainda que o incentivo dos mercados internacionais (de bens e de capitais), dos consumidores e em especial da sociedade civil faz com que estejam muito mais avançados que nós.
Blog: Sempre escutamos falar que os stakeholders é que irão determinar quais as empresas que sobreviverão no futuro. Você concorda com isso? Por quê?
Antonio Vives: Sim concordo, porém ainda passarão muitos anos antes de que isto seja uma realidade. Nos países em desenvolvimento esses stakeholders são desinformados e não podem exercer seu papel como deveriam. Os clientes não têm informação para tomar decisões que favoreçam às empresas responsáveis, os meios de comunicação não denunciam às empresas irresponsáveis, os bancos não as questionam antes de fazer um empréstimo, os governos tentam mas encontram dificuldades em fazer com que elas cumpram as regras. De certa forma, o público que mais se desenvolveu nos últimos anos é a sociedade civil, as organizações não-governamentais, que atuam como controladores e incentivadores do comportamento responsável (ainda que algumas destas organizações deveriam ouvir seus próprios conselhos).
Não obstante neste panorama mais ou menos sombrio, há uma luz no fim do tunel, ainda há esperança. Os executivos e os funcionários das empresas estão tomando consciência das vantagens da responsabilidade. Cada dia há mais publicações que se encarregam de denunciar casos negativos e realçar casos positivos. Há bancos, em atuação no Brasil, que são líderes mundiais em comportamento responsável. De fato os únicos bancos na América Latina que assinaram os Princípios do Equador sobre financiamento responsável, são brasileiros. Há esperança de que os stakeholders se desenvolvam e pouco a pouco cada um cumpra sua função nesse mercado da responsabilidade.
Blog: Em sua opinião quais os caminhos que as empresas tem que percorrer para conquistarem a tão sonhada sustentabilidade nos negócios?
Antonio Vives: A primeira etapa para a resolução de um problema é o reconhecimento de que existe um problema. As empresas devem começar tomando consciência de que a responsabilidade, além de ser uma obrigação moral, é um imperativo dos negócios. Pode ser rentável. Como em todo mercado, os que chegam antes podem conquistar uma parcela maior dos benefícios. O que não é mau. Atuam como líderes e depois podem servir de modelo para outros e, se as condições são favoráveis, estender as praticas responsáveis a mais empresas.
A melhor maneira de se começar é com o convencimento dos executivos ou dos proprietários das empresas, para depois analisar o impacto que suas atividades tem na sociedade e no meio ambiente, estabelecendo metas realistas de melhoria nas condições da operação e, na medida do possível, o impacto sobre os custos e benefícios. Neste ultimo caso, é importante ter uma visão de longo prazo, evitar a visão de curto prazo, e considerar todos os benefícios, não só os mensuráveis. Os custos costumam aparecer como tangíveis, mensuráveis e imediatos, enquanto os benefícios costumam ser percebidos como intangíveis, de difícil mensuração e de longo prazo.
Uma boa fonte de idéias são os relatórios de sustentabilidade de outras empresas. Há vários deles no site www.corporateregister.com.
Blog: Quais os conselhos que você poderia deixar aos empresários e executivos das empresas em atuação no Brasil, especialmente aos jovem-executivos que serão os "líderes socialmente responsáveis" de amanhã?
Antonio Vives: Que não sejam desinformados, que a pressão pelos benefícios de curto prazo pode ser inimiga da sustentabilidade da empresa no longo prazo. O executivo de sucesso é aquele que, verdadeiramente, tem uma visão de longo prazo e ampliada, sobretudo no aspecto da atuação da empresa. Ser responsável com a sociedade e o meio ambiente é rentável no longo prazo... E, pelo menos nos permite dormir com a consciência tranqüila.
Blog: Queremos agradecer imensamente o Antonio Vives por ter aceito nosso convite e pela agradável entrevista que nos enriqueceu com seus conhecimentos. Muito obrigado.
Antonio Vives: Eu que agradeço e parabenizo vocês pelo excelente trabalho de divulgação e promoção da responsabilidade corporativa. CEO do DDS do BID
Nome: Antonio Vives
Idade: 43 anos
Aniversário: 8/set
Uma grande emoção: Os casamentos de meus filhos
Um sonho realizado: Escrever um livro
Uma meta futura: Escrever outro livro
A maior paixão: Ensinar
Melhor livro: Enciclica Centesimus Annus, João Paulo II, um tratado de responsabilidade social
Pontos fortes: Confiável
Pontos fracos: Impaciente

terça-feira, 27 de fevereiro de 2007

Ricardo Bomeny do Bob´s

Com uma história de 50 anos essa empresa é uma das maiores e mais bem sucedidas franquias em atuação no Brasil, reconhecida nacionalmente por seus produtos de excelente qualidade e com sabor genuinamente brasileiro, vendendo seus saborosos hambúrgueres e sundaes, além do tradicional e inigualável milkshake de ovomaltine.
O sistema de franquia foi iniciado na década de 80 e hoje a rede é formada por mais de 500 lojas em 23 estados. Além disso, possui o Selo de Excelência em Franchising da ABF – Associação Brasileira de Franchising a mais importante instituição do setor no país.
Seu slogan é de dar água na boca: Gostoso é no Bob's.
O Blog Ética nos Negócios tem o prazer de receber Ricardo Bomeny, principal executivo do Bob´s.
Blog: Queremos começar esta entrevista pedindo para conhecermos um pouco do Ricardo Bomeny.
Ricardo Bomeny: É atualmente Sócio Gerente da VENBO Comércio e Alimetos Ltda (Bob's) e seu Diretor Superintendente desde Maio de 2002, acumulando também o cargo de CEO da Brazil Fast Food Corp., holding controladora da Rede Bob's. Exerce ainda a Vice-Presidência de Fast Food do SindRio (Sindicato de Restaurantes e bares do Rio de Janeiro), é Sócio Fundador e atual membro colaborador do IDV (Instituto para o Desenvolvimento do Varejo), é Vice Presidente recém eleito da ABF (Associação Brasileira de Franchising) e é colaborador voluntário da Endeavor. Nascido em 05/11/1969 atualmente com 37 anos, casado e com 3 filhas é Administrador de Empresas, com Pós Graduação em Marketing, MBA em Finanças Corporativas e MBA em Varejo. Desempenhou diversas funções em empresas de Fast Food (Bigburger, Pastello e Bob's) ao longo dos últimos 17 anos com experiências em várias regiões do Brasil e algumas passagens no exterior.
Blog: Conte-nos sobre o início do Bob´s até chegar ao que é hoje: uma das mais importantes Redes de Fast Food do Brasil e também os planos de expansão da rede.
Ricardo Bomeny: O Bob's teve sua primeira loja aberta em 1952, em Copacabana, por um tenista campeão de Wimblendon chamado Robert Falkenburg. Ele trouxe dos Estados Unidos os conceitos mais modernos e inovadores do fast-food, adaptando os sabores ao tempero brasileiro, Nesta loja, que virou mania entre os cariocas, surgiram novidades como o ham'n'eggs, hamburger, hotdog, sundae e milk-shake, até então desconhecidos entre nós. A fama do Bob's espalhou e novas lojas foram surgindo em outros bairros do Rio. Em 1984, a rede iniciou o sistema de franquia, inaugurando uma loja em Vitória-ES. Atualmente a rede Bob's conta com 530 operações em todo o País, sendo a capital do Acre, Rio Branco, a única capital dos Estados brasileiros, que ainda não possui uma loja operando, mas com contrato assinado e em fase de contrução. O Estado do Rio de Janeiro reúne 170 estabelecimentos, seguido por São Paulo com 105 operações. A estratégia é crescer forte nos estados de São Paulo, Rio Grande do Sul, Bahia e Brasília. Para 2007 estaremos abrindo mais 150 novos pontos de vendas. Estamos, também, consolidando nossa presença nos principais eventos promovidos no Brasil, dentre os quais o Carnaval do Rio de Janeiro, o Carnaval de São Paulo e os Jogos Pan-Americanos.
Blog: Quais os maiores desafios e responsabilidades que você, como principal executivo do Bob´s, tem que enfrentar no seu dia-a-dia? E no médio e longo prazo?
Ricardo Bomeny: Dentre os principais desafios que temos pela frente, poderia destacar a formação de pessoas, base essencial para o sucesso de uma empresa atualmente, foco em ações que nos insira em um contexto social responsável com várias ações sobretudo na área de educação, que nosso país tanto precisa e finalmente gerar valor e resultado para os nossos acionistas. A médio prazo teremos uma grande preocupação com a inovação, a melhoria constante de nossos serviços prestados aos consumidores e com a concorrência internacional cada dia mais presente em nosso país.
Blog: É consenso entre os consumidores, que os sanduíches do Bob´s parecem com aqueles que fazemos em casa. Qual é a receita de sucesso deste diferencial de mercado?
Ricardo Bomeny: Desde sua origem o Bob's tem buscado a adaptação dos conceitos de fast food ao sabor brasileiro. Os insumos utilizados nos seus produtos são fabricados no Brasil por empresas que conhecem as características deste consumidor. Não é por acaso que nosso slogam é "Gostoso é no Bob's". Poder sentir orgulho de servir os produtos do mercado é uma obsessão da empresa.
Blog: Um dos carros-chefes do Bob´s é o irresistível e inigualável MilkShake de Ovomaltine? E o resultado da parceria com a Nestlé no lançamento dos produtos à base do Neston tem alcançado as expectativas? Existe algum lançamento previsto para 2007?
Ricardo Bomeny: O milk shake de ovomaltine do Bob's vem aumentando sua participação no mix ano após ano. Seu sabor e textura inconfundíveis fazem dele um dois ícones do Bob's. Ampliamos nossa linha de milk shakes lançando um novo sabor bem brasileiro que fez lembrar o que popularmente é chamdo de vitamina de banana. Os cereais da Neston deram ao produto um apelo de saudabilidae, pois incorpora um alto teor de fibras. A avaliação deste produto foi a muito positiva. Temos alguns lançamentos para este ano, mas por hora ainda não podemos divulgar.
Blog: Um dos seus maiores concorrentes vem atravessando problemas, inclusive já existem rumores e até interessados na aquisição da operação do Brasil. Isso é uma questão que vem afetando as franquias no país de uma maneira geral?
Ricardo Bomeny: O franchising no Brasil vai muito bem, crescendo e se profissionalizando ano após ano. Inclusive há várias empresas iniciando o processo de internacionalização da marca, o que significa que o setor está chegando na sua maturidade. Hoje o Brasil conta com aproximadamente 700 franqueadores, e é natural que alguma empresa possa passar por algum tipo de revisão, ainda que na mudança de seu controle societário.

Blog: Outra famosa franquia de alimentação americana acaba de desembarcar no país. Isso afeta, de alguma forma, o Negócio Bob´s? O que esta sendo feito para amenizar e combater esses efeitos?
Ricardo Bomeny: No Bob's, costumamos dizer que o que mais nos preocupa é a informalidade, e não as empresas que atuam de maneira tradicionalmente correta como na maioria das vezes o fazem as redes internacionais. De qualquer modo, o Bob's está preparado para enfrentar seus concorrentes, como uma estrutura unida e sempre com visão de crescimento, fortalecimento da sua marca e construção do varejo formal no Brasil.
Blog: Há algo que você queira acrescentar sobre o Bob´s antes que iniciemos as perguntas sobre Gestão Responsável?
Ricardo Bomeny: O Bob's é uma empresa brasileira, sobrevivente, e que está enraizada na cultura do cidadão local e isso hoje em dia é uma questão muito importante pois a solidez e confiança de uma marca nacional sem dúvida agrega valor ao nosso país. Sinto muito orgulho, como brasileiro, de conduzir uma empresa como esta, onde conseguimos construir valores muito fortes e que aos poucos vem sendo reconhecido por todos.
Blog: Muito se fala sobre a Responsabilidade Social das Empresas. Qual sua opinião sobre esta nova realidade empresarial?
Ricardo Bomeny: A Responsabilidade Social tem a missão de incorporar às empresas uma nova visão sobre seus empreendimentos, baseados em relações duradouras e éticas com todo o público com o qual ela se relaciona. Suas práticas têm como objetivo a sustentabilidade no âmbito econômico, social e ambiental. A ResponsabilidadeSocial vem como uma solução empresarial para os problemas enfrentados pela humanidade, que se estendem desde a desigualdade social ao tão comentado aquecimento global.
Blog: Essa forma de gestão é de exclusividade das grandes empresas? É possível exerce-la numa rede de fast food?
Ricardo Bomeny: A Responsabilidade Social pode ser exercida por empresas de qualquer porte e de qualquer segmento.
Blog: Quais são os avanços do Bob´s na Responsabilidade Social?
Ricardo Bomeny: Muitos foram os avanços da Responsabilidade Social no Bob's, que perpassam por toda gestão empresarial, através do comprometimento em ações sociais a entidades não-governamentais, processos internos mais transparentes de contratação e promoção, divulgação dos valores observados através do desenvolvimento do Código de Ética, realização do Balanço Social, aprimoramento das relações com fornecedores, seleção de franqueados cada vez mais comprometidos com os valores divulgados, melhorias no Clima Organizacional.
Blog: Isso é patente nas lojas próprias – com operação Bob´s - ou também se estende às lojas franqueadas? Como é feito esse processo de conscientização?
Ricardo Bomeny: Os temas propostos pela Responsabilidade Social são recorrentes nas reuniões do Comitê de franqueados, que por sua vez têm autonomia para desenvolver ações sociais específicas mediante a necessidade do seu entorno. Há um proposta de envolver todas as lojas próprias e franqueadas dentro de uma única ação social.
Blog: Existe algum trabalho de coleta seletiva de lixo nas lojas Bob´s? Isso envolve a conscientização dos franqueados, funcionários e consumidores?
Ricardo Bomeny: A coleta seletiva do lixo é realizada na sede administrativa do Bob's, com ampla conscientização dos recursos utilizados e descartados. Em 2006, algumas lojas serviram de piloto para um projeto da ONU de Produção Mais Limpa, que visa aumentar a eficiência na utilização das matérias-primas, água e energia, além da minimização e reciclagem dos resíduos, a idéia é dar sequência ao projetos nas demais lojas da rede própria e franqueada.
Blog: O Bob´s não divulga as Ações de Responsabilidade Social em sua web site. Fique a vontade para comenta-las e descreve-las.
Ricardo Bomeny: Dentre os principais projetos de Responsabilidade Social, se destaca o Programa Bob's Diversidade que atesta o comprometimento da empresa com a DIVERSIDADE. O Bob's que crê na adoção desse valor como princípio básico de cidadania. Praticar a diversidade significa ter compromisso ético com a sociedade, pois as empresas estão entre os principais promotores de oportunidades de trabalho. O Programa Bob's Diversidade engloba os projetos Melhor Idade, que visa a contratação de homens e mulheres acima de 50 anos que possuem a função de ser os anfitriões das lojas, recepcionando nossos clientes; Primeiro Emprego, que contrata jovens a partir de 16 anos abrindo-lhes as portas para o mundo profissiona; e Bob's PPD, um programa pioneiro no fast-food de contratação de pessoas portadoras de deficiência física e mental.
Blog: Outra questão bastante atual e que vem sendo combatida por governos, instituições e até a classe médica, é a que se refere a Gordura Trans. O que existe de concreto sobre este produto - muito utilizado na indústria alimentícia - e o que o Bob´s planeja ou já tem realizado em seus cardápios e também para a conscientização de seus consumidores sobre seus possíveis malefícios?
Ricardo Bomeny: O Bob's, sempre preocupado com a saúde de seus consumidores, esta trabalhando conjuntamente com seus fornecedores, a fim de reduzir, ou até mesmo eliminar a gordura trans de seus produtos, adequando seus cardápios. Para a conscientização, mesmo não estando enquadrado na Resolução RDC-360 MS, estamos disponibilizando em todo o país, as tabelas de informações nutricionais, que informam aos consumidores desde a quantidade de gordura trans até o valor energético dos produtos.
Blog:. Qual o conselho que poderia ser dado àqueles empreendedores que como você, desejam ou já iniciaram suas franquias?
Ricardo Bomeny: Meu maior conselho é que estudem muito o negócio antes de fazê-lo. Prepare um bom Plano de Negócios, e considere sempre que é fundamental adotar práticas éticas e formais para que o projeto seja perene. Procure formar e tratar bem das pessoas que estão colaborando com você, e finalmente trate seu cliente como se fosse único.
Blog: Existe alguma outra questão que você queira comentar? Se não, fale um pouco sobre Ética nos Negócios. Qual a importância desse tema para uma organização?
Ricardo Bomeny: A ética orienta princípios e conduz as relações interpessoais objetivando o bem-comum. O cultivo de valores éticos é fundamental para o sucesso da organização a longo prazo e de maneira sustentável. Não se pode falar de Responsabilidade Social Empresarial sem que a empresa seja ética na relação com os clientes, com o público interno, acionistas e a própria relação com o meio ambiente.
Blog: Queremos agradecer o principal executivo do Bob´s, Ricardo Bomeny, pela participação e contribuição para a seção Entrevista CEO do Blog Ética nos Negócios.
Ricardo Bomeny: Obrigado pelo convite.

quinta-feira, 22 de fevereiro de 2007

Luis Domenech da Comgás

Na sua longa trajetória, essa empresa usou os mais diversos tipos de combinações para produzir combustíveis, de azeite a gás de hidrogênio carbonado, carvão, nafta, uma mistura envolvendo água e hulha, até chegar ao gás natural, o combustível ecológico do século 21. A implantação do gás natural, último ciclo de uma programação iniciada no final da década de 1980, foi considerada a fase mais importante de toda a história dessa companhia, que esteve presente na vida de São Paulo desde a extinção dos lampiões a azeite de baleia.
A meta da nova administração é expandir essa empresa e torná-la a maior distribuidora de gás natural da América Latina, tendo como base a qualidade, a segurança e o respeito pelo meio ambiente.
O Blog Ética nos Negócios entrevistou Luis Domenech, CEO da Companhia de Gás de São Paulo, conhecida por todos nós, como Comgás.
A Comgás é uma companhia centenária que faz parte da história do Estado de São Paulo. Foi em 1872 que essa empresa, recebendo autorização do Império, iniciou suas atividades que tinham como objetivo a exploração da concessão dos serviços públicos de iluminação em São Paulo.
No final da década de 90, durante o processo de privatização que visou a melhoria da qualidade dos serviços públicos oferecidos pelos governos aos cidadãos, o controle acionário da Comgás foi arrematado pelo consórcio formado pela inglesa British Gas e pela anglo-holandesa Shell, por R$ 1,65 bilhão. Desde o dia 21 de maio de 1999, a Comgás tem como novos controladores duas das maiores empresas de energia do mundo.
Blog: É uma grande satisfação receber você aqui no Entrevista CEO. Sempre iniciamos nosso bate papo conhecendo a pessoa convidada a falar ao Blog Ética nos Negócios. Por isso, gostaríamos que você falasse sobre o Luis Domenech.
Luis Domenech: Sou argentino, casado há 30 anos, tenho dois filhos que moram em Buenos Aires, minha formação profissional é administração de empresas. Moro há três anos no Brasil e estou adorando viver aqui, gosto do trabalho que tenho aqui, gosto da cidade de São Paulo e especialmente dos brasileiros.
Eu vim de Buenos Aires, onde era presidente da Metrogas, que é também uma empresa controlada pelo Grupo BG, principal acionista da Comgás. Foi o Grupo BG que me trouxe para o Brasil com a finalidade de continuar o trabalho de fazer a Comgás crescer, apresentando os melhores resultados financeiros possíveis, com elevado padrão de qualidade e de segurança.
Blog: De acordo com a Revista EXAME Melhores & Maiores – Edição 2006, a Comgás está entre as 100 maiores empresas em atuação no Brasil, ocupa a 29º colocação no ranking do Setor de Serviços e é a 7º melhor empresa no rol daquelas de Serviços Públicos. Como é conduzir uma empresa deste quilate? Quais seus maiores desafios como CEO?
Luis Domenech: A Comgás é uma empresa que está em franca transformação e expansão. A transformação começou quando os novos controladores, o Grupo BG e a Shell, assumiram a empresa, em maio de 1999. Hoje a Comgás distribui quatro vezes mais gás natural canalizado do que quando foi privatizada, conseguimos transformá-la em uma companhia de categoria mundial, com os mais elevados padrões de qualidade e segurança e tudo isso está ocorrendo dentro de um período de constante crescimento da empresa. Meu grande desafio é liderar essa transformação, fazendo que com que a companhia e todo o seus empregados cresçam juntos e que apresentem melhorias constantes. Procuramos sempre atuar com base nos sete indicadores desenvolvidos pelo Instituto Ethos, que pautam as empresas para a responsabilidade social. Tenho ainda que assegurar que a Comgás preste o melhor serviço possível aos nossos clientes e definir a melhor forma de conduzir os negócios. Além disso, trabalhamos para melhorar nossas práticas de governança corporativa, em linha com princípios éticos e de transparência vigentes nas melhores empresas.
Blog: Inúmeros serviços públicos foram privatizados no Brasil. Apesar das críticas de alguns setores, não há como negar que após a concessão houve intensivos investimentos, trazendo melhorias significativas nos serviços prestados à sociedade. Isso também ocorreu com a Comgás?
Luis Domenech: Sim, definitivamente. Desde a privatização, os novos controladores investiram quase R$ 2 bilhões para ampliar a rede e oferecer aos nossos clientes serviço de qualidade e dentro das normas mais rígidas de segurança. Nosso lema é: "faça com segurança ou não faça". O grande resultado colhido é que em sete anos como empresa privatizada, a Comgás cresceu muito mais que em toda a sua história e a Comgás completa este ano 135 anos. Fizemos muito e vamos continuar a fazer. Por exemplo: quando a Comgás foi privatizada tinha uma rede de pouco mais de 2 mil quilômetros. Hoje temos quase 5 mil quilômetros de rede de distribuição. Em 1999 atendíamos 17 municípios, hoje são 59 cidades que contam com o gás natural. O número de postos de GNV não chegava a 20 e hoje são mais de 370. São resultados muito significativos e o melhor é que trabalhamos com um combustível que é usado em substituição a outros que são mais poluentes, ou seja, colaboramos para um planeta melhor, menos poluído. Gostaria de lembrar também que na época da privatização, a Comgás tinha pouco mais de mil empregados e hoje geramos mais de 4 mil empregos diretos e indiretos.
Blog: E é por tudo isso que a Comgás é hoje a maior distribuidora de gás natural canalizado do país, atuando na distribuição do gás natural da região metropolitana de São Paulo, Vale do Paraíba, Baixada Santista e Campinas. Quais os principais objetivos conquistados em 2006 e quais as metas de destaque para 2007?
Luis Domenech: Ainda temos que continuar a ampliar nossa rede de distribuição de gás natural para levar nosso combustível a um número maior de clientes. Em 2006 conectamos quase 50 mil novos clientes, passamos a barreira dos 500 mil clientes conectados e vamos trabalhar para superar nossos resultados este ano. Por exemplo, temos como meta conectar 75 mil novos clientes em 2007, o que é um grande desafio, mas estou confiante de que o time Comgás vai conseguir se superar mais uma vez.
Blog: Muitas pessoas não sabem o que é o gás natural e, às vezes até o confundem com o conhecido gás de cozinha, o GLP. Você poderia explicar aos nossos leitores as características, os benefícios e as vantagens deste tipo de combustível? E porque o gás natural é chamado de “combustível verde”?
Luis Domenech: Vou começar falando dos benefícios e vantagens do gás natural. O gás natural é mais seguro que o GLP, que é o gás de botijão, porque o gás natural é mais leve que o ar e no caso de vazamento, por exemplo, se dissipa no ar, o que não ocorre com o GLP, que é mais denso e forma bolsões próximo do solo. Ainda no item segurança, é bom destacar que o gás natural não necessita de armazenagem, o usuário não precisa ficar com botijão dentro de casa, da indústria ou do comércio. Outro item é a praticidade devido ao fornecimento contínuo, o usuário não precisa se preocupar se o botijão está acabando e, além disso, o pagamento é feito somente após o consumo. Há ainda outras vantagens, como aproveitamento total do combustível, ser um produto ecologicamente correto e, além disso, há o Comgás 24 horas, que é um canal direto com os clientes, todos os dias e a toda hora.
O gás natural é considerado um “combustível verde” porque é muito menos poluente que o óleo combustível ou qualquer outro combustível fóssil. Trata-se de um combustível mais limpo e ecologicamente correto. A queima do gás natural emite quantidade menor de material particulado, que é a fumaça preta; é praticamente isento de SO2, que é o enxofre; e emite quantidades menores de CO2, (monóxido de carbono), hidrocarbonetos e óxido de nitrogênio.
Blog: Quais as principais aplicações do gás natural? Em quais segmentos de mercado ele pode ser utilizado? Existe algum tipo de resistência para trocar a utilização de um combustível mais poluente para o gás natural? Como esse paradigma vem sendo quebrado?
Luis Domenech: O gás natural pode ser usado nos segmentos residencial, comercial, industrial, automotivo e em termos de co-geração. Estamos conseguindo entrar em todos esses mercados. Eu gostaria de aproveitar essa questão ligada ao aspecto ambiental para lembrar que Cubatão, na Baixada Santista, há alguns anos era uma das localidades mais poluídas do Brasil, talvez do mundo. Hoje, a situação é bem diferente, melhorou muito e atualmente, ao contrário do passado negro, as grandes indústrias locais são abastecidas pelo gás natural.
Blog: Gostaríamos de nos concentrar na aplicação do gás natural na geração de energia, na indústria e nos transportes, haja vista que estes segmentos acabam sendo os grandes vilões do aquecimento global. Com exceção do elevado desmatamento que deve ser combatido com maior vigor, o Brasil ainda é um país privilegiado em virtude de sua energia ser gerada, basicamente, através de hidroelétricas, ou seja, nossa energia é de fonte limpa e renovável, e com isso, nossa economia irá se beneficiar do promissor mercado de créditos de carbono em expansão em todo o planeta. Contudo, na área industrial como vem sendo a aceitação à troca de combustíveis fósseis para o gás natural? Quais as principais razões para uma empresa passar a utilizar esse combustível? Em sua opinião, essa conversão pode ser encarada como uma responsabilidade ambiental dessas empresas?
Luis Domenech: Muitas empresas migram para o gás natural devido às questões ambientais, mas o fator que mais pesa para a mudança de combustível é a questão financeira, principalmente quando se trata do setor industrial, mas o gás natural invariavelmente é menos poluente que o óleo combustível, o diesel e todos os demais combustíveis fósseis e somos muito competitivos financeiramente.
Em relação à geração de energia elétrica, o gás natural terá um papel complementar ao do sistema hidrelétrico nacional, para dar maior confiabilidade na produção de energia elétrica.
Blog: Já no setor de transportes, o Brasil vem dando exemplos ao mundo. Primeiro, com o álcool que é um combustível de fonte renovável e já está sendo exportado para outros países, tanto o produto em si como a sua correspondente tecnologia. Seu principal benefício é o de emitir menos poluente na atmosfera em relação à gasolina e à própria emissão de CO² quando da queima do álcool combustível, acaba sendo compensada em função do seqüestro de carbono conseguido na plantação de sua matéria-prima, no caso do Brasil, a cana-de-açúcar. Agora chegou a vez do BioDiesel que também é outro combustível verde que contribuirá com a redução de poluentes. Qual a razão de não haver maior incentivo para a utilização do gás natural veicular (GNV) em outros tipos de veículos, como é o caso do nosso vizinho, a Argentina? E mesmo com pouco incentivo o mercado de GNV cresce a passos largos no país, por quê?
Luis Domenech: O mercado de gás veicular cresce a passos largos principalmente porque oferece economia ao usuário, chegando a 70%. Este é o principal motivo do sucesso. O uso do gás natural em veículos leves é indicado apenas para quem roda pelo menos perto de 100 quilômetros por dia, não é indicado para todos os usuários porque tem o custo da instalação do kit de GNV. Por exemplo, para o usuário que anda mais de 100 quilômetros com seu veículo por dia, demora cerca de seis meses para conseguir o retorno do investimento feito, para depois realmente economizar. Particularmente não sou a favor de subsidio para veículos leves a gás natural. Agora, sou um defensor ferrenho do uso do gás natural para ônibus urbanos e para transporte de carga de curta distância.
Blog: Recentemente, lançamos a 1ª Pesquisa sobre Código de Ética Corporativo no Brasil com o objetivo principal de motivar o maior número de empresas na elaboração e adoção desse instrumento. Nessa inédita pesquisa, constatamos que a Comgás possui sua Declaração de Princípios. Qual a sua importância?
Luis Domenech: A Comgás tem uma Declaração de Princípios e Valores e a ética é um dos nossos principais valores. Para a empresa é muito importante a transparência em tudo que é feito, tanto junto aos clientes, como ao acionista, ao regulador e a todos os nossos fornecedores e parceiros.
O RH da Comgás está desenvolvendo um grupo de trabalho para a formulação de um Código de Ética da empresa. Neste grupo membros representando todas as áreas da empresa construirão nosso Código de Ética.
Blog: O que significa Responsabilidade Social Corporativa para a Comgás?
Luis Domenech: Com a privatização, a Comgás passou por uma grande transformação e, desde então, tem trabalhado a questão da sustentabilidade nos seus processos, equilibrando o bom desempenho econômico-financeiro com respeito ao meio ambiente e a excelência na gestão de seu relacionamento com os diversos públicos de interesse, promovendo o desenvolvimento social por meio de iniciativas diversas e pela própria natureza de seu produto, o gás natural.
Blog: E é essa seriedade que levou a Comgás a elaborar a política de Investimento Social? Em linhas gerais, qual a finalidade dessa política?
Luis Domenech: Seriedade e busca pela excelência pautam a performance de nossos investimentos nesta área. Em 2000, motivada por seus acionistas (Grupo BG e Shell), a Comgás pôde desenvolver uma Política de Investimento Social sólida e avançada.
Ao elaborar a Política de Investimento Social e os projetos que dela derivaram, a empresa buscou fortalecer e sedimentar sua atuação na área social. Por isso, ancorou-a em seus valores corporativos, de forma estruturada (com alocação de recursos, planejamento de longo prazo e visando à sustentabilidade) e estratégica, de modo a gerar ações efetivas e inovadoras que possam ser disseminadas em parcerias com outros segmentos da sociedade.
A companhia busca sempre considerar a co-responsabilidade e a capacidade das comunidades de operar suas mudanças.
Blog: Quais as principais ações de responsabilidade social desenvolvidas pela Comgás?
Luis Domenech: De nosso política, originaram-se três programas:
1. Aprendiz Comgás: dirigido a jovens;
2. Projeto de Educação Ambiental: para crianças;
3. Voluntariado: para os empregados, terceiros e respectivos familiares.
Blog: Gostaríamos que você destacasse o exemplar Progama Aprendiz Comgás – o PAC? Quais seus objetivos e projetos mais significativos?
Luis Domenech: O Programa Aprendiz Comgás trabalha com jovens de 14 a 18 anos, estudantes de escolas públicas (80%) e privadas (20%). Os adolescentes são convidados a participar ativamente de programas em suas comunidades por meio de projetos que eles mesmos propõem e desenvolvem. Assim, o programa trabalha com o conceito de protagonismo juvenil, em que os jovens são atores e autores de iniciativas em prol de suas comunidades. Em consonância com a Política de Investimento Social que visa a geração de tecnologias sociais, o Aprendiz Comgás foi criado na cidade de São Paulo e expandido gradualmente em direção ao interior, na etapa chamada DisseminAção. Essa etapa forma educadores-multiplicadores que vão replicar o programa no interior.
Em 2005, o programa chegou aos municípios de Hortolândia, Americana, Indaiatuba, Jaguariúna e Pedreira, na região de Campinas. Em 2004, já havia contemplado São José dos Campos (Vale do Paraíba), São Bernardo do Campo e São Caetano do Sul (no Grande ABC). Em 2006, a ação foi focada no município de Campinas.
Desde sua fundação, em 2000, já passaram mais de 1100 jovens em 200 projetos sociais em São Paulo. No interior, em dois anos, foram mais de 70 professores e 600 jovens de escolas públicas envolvidos na elaboração de projetos sociais nos seus municípios.
Blog: Em sua opinião, qual a importância de uma empresa elaborar seu Balanço Social? A Comgás é adepta a esta prática empresarial? Por quê?
Luis Domenech: Fundamental, sem dúvida. A Comgás publicou seu primeiro Balanço Social em 2002. Hoje, produzimos um relatório único, o de Sustentabilidade, mostrando a performance das três importantes vertentes do desenvolvimento sustentável de forma integrada: o ambiental, o social e o econômico. Seguimos o padrão GRI, Global Reporting Initiative, adotado mundialmente como referência.
As empresas hoje têm sua participação e atuação social ampliadas. É importante ser transparente e comunicar em que medida e como elas têm contribuído, interna e externamente, com a promoção do desenvolvimento sustentável.
Blog: A elaboração desse instrumento é característica de grandes empresas?
Luis Domenech: Não. Acredito que a intenção de comunicar seu desempenho com transparência é hoje percebida e valorizada pela sociedade, independente do porte da empresa.
Blog: Quais as dicas que você pode deixar aos jovens que desejam ser os Líderes Socialmente Responsáveis de amanhã?
Luis Domenech: Que comecem hoje. A Comgás tem um compromisso forte com a juventude. Por isso, investe no Aprendiz Comgás, seu carro-chefe na área social, e busca valorizar o empreendedorismo juvenil. Acreditamos que o jovem pode e deve ser estimulado a ser ator e autor de intervenções na comunidade, contribuindo de forma ativa na sociedade.
Blog: O Blog Ética nos Negócios quer agradecer imensamente o presidente da Comgás, Luis Domenech, por tão honrosa oportunidade. Muito obrigado por sua participação no Entrevista CEO. Um abraço!
Luis Domenech: A satisfação é toda nossa!